Grupo que organizou manifestação contra taxas da prefeitura compartilha listas de boicote a outros empresários

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Uma das listas ilegais que incentivam a discriminação de empresas e empresários que deveriam ser evitados porque seus proprietários têm perfil político diferente da maioria circulou no grupo de WhatsApp “Festival de Descontos” criado para protestar contra a criação de taxas pela Prefeitura de Jales no começo de setembro.
Empresários e empresárias, principalmente pequenos comerciantes pregam abertamente a discriminação política, na prática incentivando os outros a evitar esses estabelecimentos. Há ainda aqueles que assumem que cometem a discriminação, mas dizem não incentivar.
“Eu, realmente acho que [as minhas funcionárias] têm que estar no mesmo patamar que o meu. Não mandaria embora, mas não contrataria uma pessoa sabendo que ela faria manifesto e rindo da minha cara. Acho que a lista é desnecessária porque todo mundo sabe quem vota em quem. A questão de deixar de comprar no estabelecimento, realmente estou revendo estes conceitos e de coração é a minha última opção. Quando falam daquele estabelecimento eu evito. Eu evito comprar nestes estabelecimentos. É um absurdo que como comerciante, empresária, aceitar que a esquerda vá fazer melhor do que a direita. Mas não concordo com a lista”. A frase é de uma comerciante do setor de roupas estabelecida na rua Doze e foi dita em uma grupo de WhatsApp.
Além de absolutamente ilegal, as listas que incentivam a segregação de empresas por motivos políticos, pode também ter o efeito diverso daquele pretendido. Algum desafeto ou que apenas queira prejudicar um concorrente pode incluir indevidamente numa dessas listas alguém que não pertença ao perfil que se quer discriminar. Ou seja,qualquer um pode incluir qualquer um nessa lista, seja ele de qualquer espectro político.
Foi o que aconteceu com a proprietária de uma loja de doces localizada no centro da cidade. No grupo de WhatsApp, ela pede que a lista ilegal seja atualizada e que o seu nome seja excluído. “Eu gostaria de saber quem está fazendo esta lista e atualizar, porque eu não sou de esquerda e nunca fui de esquerda. Isso não está correto. Eu recebi hoje [a lista] criticando, falando que eu era petista. Não sou e não sou contra quem votou, mas eu não sou e não gostaria de estar nesta lista. Aqui nós não votamos e não torcemos a favor do PT, não”, diz a mulher, que aparentemente não defendeu os outros comerciantes que têm preferência política diferente da dela. Apenas procurou se defender dos possíveis prejuízos financeiros decorrentes da publicação do nome da sua empresa na lista das que devem ser evitadas.
Listas são ilegais e podem render processo criminal
O problema, contudo não é apenas local ou regional. Aparentemente, brasileiros perderam parte da empatia e absorveram características preconceituosas e rancorosas que extrapolam a disputa política civilizada.
Estão sendo registradas ocorrências criminais semelhantes em várias partes do Brasil, incluindo São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
Vários comerciantes afetados ou citados indevidamente procuraram delegacias de polícia e registraram boletins de ocorrência.
Especialistas em direito e órgãos como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) alertam que a criação e o compartilhamento viral dessas listas podem configurar crimes ou ilícitos civis, como difamação, injúria, perseguição (stalking) ou constrangimento ilegal, dependendo do teor das acusações e dos danos causados às vítimas
Segundo matéria do Portal UOL, O movimento começou após a vitória do petista no segundo turno das eleições. Nos materiais, os bolsonaristas incluem o nome de comércios locais, como mercadinhos, docerias, padarias, livrarias e até mesmo grandes empresas como o Itaú e o posto Ipiranga. Há também a indicação de profissionais liberais, como dentistas, fisioterapeutas e advogados. Bolsonaristas também têm compartilhado publicações em que pedem boicote a viagens ao Nordeste e a doações para pessoas mais pobres.
Além de extremamente preconceituosas e discriminatórias, as campanhas são também pouco inteligentes do ponto de vista empresarial. Se a divisão se aprofundar, mais de matade da população deixaria de comprar em estabelecimentos que tenham posicionamento político diverso, uma vez que a votação da população ficou praticamente dividida pela metade. Não vender para uma parte tão significativa da população pode causar prejuízos irreparáveis a qualquer empresa de qualquer espectro político.
O promotor de Justiça da área do consumidor em Ribeirão Preto, Carlos Cesar Barbosa, alerta que essas listas de boicote a empresários e prestadores de serviço por motivação política podem ter consequências nas esferas criminal e civil.
Segundo o promotor, esse tipo de prática pode caracterizar crime de injúria e gerar direito à indenização por danos materiais e morais às vítimas. Ele também compara a iniciativa a práticas de perseguição política associadas ao regime nazista.
Barbosa orienta que pessoas que tenham conhecimento de situações desse tipo compartilhem as informações para que mais pessoas conheçam e defendam seus direitos.
Difamação inconsequente
Uma comerciante citada em uma das listas que circulam entre os próprios empresários lembrou que seu negócio é familiar e não pede o título de eleitor nem faz discriminação de nenhum cliente.
Preocupada com possíveis prejuízos, ela alertou para o risco de a difamação atingir o faturamento da empresa e o ganha pão de seus funcionários e, consequente, de famílias que dependem daquele trabalho. “Eu não vou tratar isso como se fosse normal. A loja nunca se posicionou politicamente, e eu nunca declarei apoio a nenhum partido ou candidato. Nunca utilizei a minha loja como instrumento político. Nunca fiz dela um espaço de divisão, de disputa partidária ou de julgamento das escolhas de ninguém. Não vou permitir que a intolerância transforme aquilo que construí com tanto amor”.
Por fim, a empresária fez um desabafo. E é muito triste perceber que, em uma cidade onde tantos comerciantes lutam diariamente para manter suas portas abertas, gerar empregos e sustentar suas famílias, existam iniciativas que incentivem pessoas a deixar de comprar em um lado ou de outro. Desde quando precisamos pensar igual para respeitar uns aos outros? Desde quando uma posição política atribuída a alguém passou a determinar quem merece ser respeitado?”.
A deixou uma mensagem. “Às minhas clientes, quero dizer uma coisa: vocês sempre foram recebidas aqui como pessoas, e não como eleitores de um lado ou de outro. A loja continuará sendo um lugar acolhedor, de respeito, alegria e liberdade. E, para finalizar, deixo uma reflexão: A política passa por eleições. Mas as palavras, as atitudes e as marcas que deixamos na vida das pessoas permanecem”.

Redação A Tribuna
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