A Tribuna: Doutor João Eduardo Lima Carvalho, estamos a poucos dias do segundo turno das eleições gerais no Brasil, e uma eleição totalmente indefinida, segundo as pesquisas, em empate entre os dois candidatos que disputam a presidência da República. Isso é uma coisa, talvez, inédita, né? Um nível de empate, de indefinição tão grande. Como é que o senhor vê essa situação aí? Isso é positivo para o Brasil? É negativo para o Brasil? Qual é a sua avaliação?
Dr. João Eduardo: O segundo turno se aproxima, e então domingo o Brasil vai escolher o seu próximo presidente da República. O inédito é essa total indefinição, né? Nós não temos um favorito, propriamente dito, né? Embora Flávio Bolsonaro tenha saído do primeiro turno como figurando, né, em primeiro lugar, as pesquisas mostram que há um empate; a última pesquisa apresentada mostra claramente isso: 45 Flávio, 44 Lula. Então a gente não está nem falando de empate no limite da margem de erro, a gente está falando de empate mesmo, né? E aí o que pode ocorrer, sem dúvida, é uma diferença menor, inclusive, se comparado a 2022. Então, fazer um prognóstico de “este é favorito ou este” hoje se mostra bastante arriscado, justamente por conta dessa movimentação. Nós vimos também a campanha de Lula tomando ações e reações que não foi visto no primeiro turno, né? A gente viu uma campanha mais ativa, ao que não foi visto no primeiro turno. Então, fazer qualquer projeção de favorito, hoje, é muito arriscado.
A Tribuna: Especificamente sobre o segundo turno, esse sistema de segundo turno que já é consagrado no Brasil, o senhor considera positivo a eleição em duas fases, pelo menos eleições para o executivo em duas fases?
Dr. João Eduardo: O sistema de segundo turno se faz muito necessário pelo fato de que nós estamos falando de uma população eleitoralmente ativa muito grande, né? Então, colocado vários projetos num primeiro turno e, aí, desses projetos, dois são escolhidos para ir ao segundo turno. Embora a gente tenha visto durante a apuração do primeiro turno que quase houve uma conclusão aí no primeiro turno para presidente — aqui no estado de São Paulo houve essa conclusão, né, o Tarcísio foi eleito e primeiro foi reeleito em primeiro turno —, no entanto, esse sistema do segundo turno é muito interessante por conta da complexidade do número de eleitores que o Brasil tem, né? E agora, peneirando, vamos chamar assim, todos os projetos presidenciais em apenas dois, Flávio e Lula, que é a grande, que é a grande disputa, né? A gente não pode esquecer que os outros candidatos, com devido respeito, foram candidaturas muito pequenas, né? No meio político a gente chama até os anões, porque os outros candidatos não passaram de projeções de votos e votos, propriamente ditos, na apuração, com um percentual muito pequeno, né, com especial atenção a Romeu Zema, que eu acho que foi a candidatura mais fraca desses nomes mais conhecidos, justamente porque foi governador de um importantíssimo estado da federação e teve uma votação muito pequena, muito pequena mesmo, né? Então, esse formato de segundo turno ainda atende às necessidades do processo eleitoral brasileiro.
A Tribuna: E sobre as pesquisas, Doutor João Eduardo, as pesquisas são confiáveis ainda? Passamos por algumas decepções, né? Em algumas eleições anteriores tivemos muitas decepções, muitos erros crassos, ou erros de leitura, pelo menos. O senhor acredita em pesquisas? A acha que a população deve acreditar em pesquisas eleitorais?
Dr. João Eduardo: As pesquisas eleitorais, elas são… É um assunto muito complexo, né? Nós vimos as pesquisas, principalmente em 2022, errarem muito. A metodologia estava muito errada. Subestimaram o voto bolsonarista, que tinha um comportamento e ainda tem de não responder muito às pesquisas eleitorais, ou seja, surpreendeu muito com 2022, né? Mas houve uma correção metodológica, ainda não é uma… alguns institutos ainda erraram muito. Só que a gente tem que entender que pesquisa eleitoral, É um retrato, é uma fotografia naquele momento daquelas pessoas que foram entrevistadas. Então dá para fazer uma análise sobre o comportamento eleitoral, mas de forma alguma nós podemos cravar que aquilo vai ser efetivamente demonstrado na hora do voto, né? É uma ótima fonte de pesquisa, porém, tem que ser utilizada com o devido cuidado. Teve os erros metodológicos, foram corrigidos, mas, sem dúvida, os institutos ainda precisam aprimorar mais a forma com que é feita essa análise.
A Tribuna: E sobre essa divisão, Doutor João Eduardo, exatamente metade da população optando por um candidato e a outra metade dos eleitores optando pelo outro candidato, isso, como é que fica depois das eleições? O senhor acha que vai haver um apaziguamento depois? Que a parte que perder vai entender o outro lado? Qual é a situação que fica nessa divisão tão grande aí, sem nenhuma vantagem para um lado e nenhuma para o outro? As pessoas vão entender a legitimidade da eleição? Ocorre de andecer, como já aconteceu no passado, haver aí uma problemática toda com pessoas inconformadas com o resultado?
Dr. João Eduardo: Essa é a parte mais delicada de eleições polarizadas. Nós temos que entender o fenômeno da polarização. Ele não é necessariamente ruim para a democracia, na verdade, em todas as democracias consolidadas existe esse sistema, essa esse desenho de polarização. Se a gente ver, os Estados Unidos é muito polarizado, né? Partido Republicano, Partido Democrata, embora muitas pessoas achem que só existem dois partidos lá, não é verdade. Lá existem vários partidos, inclusive a possibilidade de candidaturas independentes. No entanto, a disputa fica nesses dois, justamente por ser um ambiente polarizado. Na Inglaterra também, né, no Reino Unido, na França, ou seja, essa situação da polarização no final é a divisão e aí feita a análise, descendo alguns níveis, mas é uma escolha de projetos e esses projetos geralmente são antagônicos, tá? Então, não vejo a polarização como um dos principais problemas da democracia. É preciso entender essa polarização e o que levou a ter os lados tão opostos nem no sentido ideológico, porque a gente tá falando de candidaturas que não, por exemplo, a candidatura do presidente Lula, ela não, embora muito se diz isso, embora muito se diz isso, se diga isso, perdão, de que é uma candidatura de extrema esquerda, existe essa leitura rasa em alguns comentários, ela não é, né? De forma alguma, é uma candidatura de centro a centro-esquerda. Então a gente não tá falando de ideologias em lados opostos, não é? No entanto, essa provocação que você faz é importantíssima, no sentido de que o próximo presidente não vai governar apenas para aqueles que votaram em seu nome ou em seu projeto, ele vai ter que governar para esses eleitores e para os eleitores que o rejeitaram na urna. E esse é o principal desafio, né? Como administrar uma sociedade que está muito dividida e essa divisão nem sempre respeita os limites democráticos. Acho que esse é o grande desafio hoje da democracia brasileira.
